Yankee News

quinta-feira, novembro 30, 2006

Histórias do esporte: Maldição do bambino

Por dentro dos 86 anos que fizeram a Maldição do Bambino assombrar o Fenway Park
Quando pensava no jejum do Boston Red Sox, só me lembrava de um time: o Corinthians.
Tão popular quanto o alvi-negro, o queridinho do estado de São Paulo, o Red Sox é o xodó da região da Nova Inglaterra. A paixão pelo Sox vai além do estado de Massachusetts, e conquista torcedores de Vermont, Connecticut, New Hampshire, Rhode Island...
E se a torcida do Corinthians ganhou o apelido de Fiel por ter passado por 23 anos sem ganhar um título, entre 1954 e 77, a torcida do que amargou um jejum de 86 anos - desde 1918 - e continuou como o grande amor da Nova Inglaterra - um fanatismo maior que o do Patriots, que vem em grande fase, ganhando dois Superbowls - ganhou o apelido de "fiéis de Fenway".
Essa torcida, que foi o décimo jogador do Red Sox durante os turnos de defesa e foi a mão dos rebatedores e pernas dos corredores nos turnos de ataque, certamente conquistou a todos que assistiram a série contra os Yankees. Cartazes de "Ainda Acreditamos" quando os Sox perdiam a série por 3 a 0 para os rivais, ou o velho torcedor que orgulhoso levantava sua bandeira dizendo "Nasci em 1918 e ainda acredito" fizeram desses confrontos um espetáculo à parte.
E em nome dessa torcida fiel, vamos dar uma rápida passada nesse jejum amargo dos Sox até o glorioso ano de 2004, quando o time emplacou dois recordes memoráveis no coração de qualquer torcedor.
O longínquo 1918
Em 1918, os Red Sox colecionaram em sua temporada regular 75 vitórias e 51 derrotas, com uma média de público de 249,513. Naquelatemporada, os Red Sox tiveram em seu elenco um certo Herman Ruth, também chamado de Babe ou Bambino. Ruth liderou o time na conquista da World Series, vencendo por 4 jogos a 2 o Chicago Cubs - outro time a amargar longo jejum. Baby Ruth encerrou duas partidas como arremessador vencedor naquela série. As outras duas tiveram o Red Sox Carl Mays como vencedor.
Mas em 1920 o dono da franquia Harry Frazee vendeu Ruth para o Coronel Jacob Ruppert, que tinha um time chamado New York Yankees. Frazee, apaixonado por teatro, queria mais dinheiro para financiar a peça de sua namorada. E aqueles tais Yankees, que nunca tinham conquistado uma World Series, venceu oito delas na década de 1920, com um Babe Ruth destruidor. E os torcedores do Sox passaram a acreditar que Ruth rogou uma praga no time, por isso, ficaram com uma maldição. A "Maldição do Bambino".
Os primeiros 28 anos de Maldição
Com a venda de Ruth e a Maldição do Bambino, os Sox amargaram 28 longe da World Series. E nesse período o time teve ninguém mais ninguém menos que Ted Williams, para muitos o maior rebatedor de todos os tempos, e craques como Bob Doerr, Jimmy Foxx e Johnny Pesky. Só mesmo em 1946 o Red Sox viria a disputar uma nova World Series, perdendo para o Saint Louis Cardinals por 4 a 3.
21 anos depois
Após perder a World Series para o Cardinals, os Sox passariam novamente mais de duas décadas longe da grande disputa do beisebol. Só em 1967 o time voltaria a disputar a série que define o grande campeão norte-americano de beisebol. Desta vez o time liderado por Carl Yastrzemski, mais conhecido por Yaz, queria voltar a disputa da World Series. Assinando contrato com o Sox quando ainda estava em seu primeiro ano de faculdade, Yaz passou alguns anos nas Ligas Menores até subir ao Sox em 1961. Em 67, Yaz foi o grande jogador do chamado "Sonho Impossível" do Sox de chegar a World Series. Chegaram. Mas caíram novamente frente ao Cardinals, perdendo a WS por 4 a 3.
21 de Outubro: Quase perfeito
Em 69 foram instituídas as Séries de Campeonato das Ligas. Nos seis primeiros anos de disputa, nem Yankees nem Red Sox se fizeram presente nas finais. Só em 1975 o Boston Red Sox chegou a uma Final de Campeonato. Iria enfrentar o Oakland Athletics, que chegou a quatro finais de campeonato consecutivas, perdendo apenas a primeira, em 71, para os tri-campeões Orioles, e vencendo as outras três que disputou uma contra o Tigers e outras duas contra os mesmos Orioles. Após vencer os tri-campeões de Oakland, os Sox foram enfrentar a chamada "Grande Máquina Vermelha", o Cincinnati Reds. O Jogo 6 daquela série, em 21 de outubro, é tido por inesquecível para todos aqueles que estiveram no Fenway Park. Perdendo a série por 3 a 2, o Red Sox perdia aquele jogo por 6 a 3 no oitavo inning, com dois homens eliminados. Uma derrota naquele jogo daria o título aos Reds. Mas o Sox de Dwight Evans, Carlton Fisk (que marcou o home run da vitória na 12ª entrada) e do herói Bernie Cabo, cujo home run marcado nesse 21 de outubro, que empatou o jogo, se tornou um monumento para o time. Infelizmente para a torcida vermelha (do Sox), o título acabou indo mesmo para os Reds, que venceram o jogo 7 por 4 a 3. Era o primeiro título do Reds em 35 anos - o último tinha sido em 1940, vencendo o Tigers por 4 jogos a 3.
Nove anos depois, o título escapa por debaixo das pernas
O ano era 1986. Os Mets vinham com o favoritismo de 108 vitórias nas costas, e tinha em seu time nomes como Ray Knight, a estrela juvenil Dwight Gooden e o ex-Red Sox Bob Ojeda. No entanto, os Sox pareciam afim de, finalmente, acabar com sua maldição. A franquia de Boston abriu 2 jogos a 0 na série. Os Mets conquistaram sua primeira vitória vencendo o jogo 3 por 7 a 1 e empataram a série no jogo 4. Mas o Sox do jovem Roger Clemens e de Bruce Hurst venceram o jogo 5 e ficaram a apenas um jogo de encerrar a maldição que jádatava 68 anos na cabeça dos torcedores dos Sox. E, no famoso jogo 6 da série, as nove entradas terminaram empatadas em 3 a 3. Na décima entrada, um home run de Dave Henderson e uma corrida de Wade Boggs abriram 5 a 3 para os Sox. Seria o fim da Maldição do Bambino?
Calvin Schiraldi eliminou os dois primeiros rebatedores dos Mets no turno de defesa do Red Sox. Era uma eliminação para o título e 5 a 3 no placar para Boston. Mas com três rebatidas simples, o New York alcançou 5 a 4. Com Bob Stanley arremessando mal, e o jogo sendo empatado em 5 a 5, Mookie Wilson rebateu a bola que foi em direção ao primeira base Bill Buckner, protagonizando uma imagem inesquecível. O primeira base deixou a bola escabar por entre as suas pernas, e Ray Knight marcou a corrida que deu a vitória por 6 a 5 aos Mets, e assim levando o jogo para a última e decisiva partida.
Mesmo desmoralizado pela derrota, os Sox abriram 3 a 0 na segunda entrada do jogo 7, graças a dois home runs de Dwight Evans e um de Rich Gedman. Mas as três corridas que a franquia de Nova York marcou na sexta entrada empatou a partida. E marcaram mais três corridas na sétima entrada. Com Jesse Orosco arremessando perfeitamente nas duas entradas finais, o New York Mets segurou o grito de "Campeão" do Red Sox, que chorariam esse título até 2004.
A amarga década de 90
Na década de 1990, o Red Sox parecia cansado de correr atrás de um título que não vinha. Começou a década na final do Campeonato da Liga Americana, e deixou o título escapar por 4 jogos a 0 para os Oakland Athletics.
Em 1995, com a instituição dos Campeonatos de Divisões, o Boston chegou a final de sua divisão contra os Cleveland Indians. Mais uma vez não ofereceu resistência, e perdeu por 3 jogos a 0. Passaria dois anos em branco até 1998, quando voltou a final do Campeonato de Divisão, mas perdeu por 3 jogos a 1, mais uma vez para os Indians.
O primeiro título, e único da década de 90, veio em 99, com a conquista do Campeonato de Divisão sobre os Indians, vencendo por 3 jogos a 2 - o que ainda deixa o Sox na desvantagem na soma dos jogos de final de Divisão contra os Indians, vencendo 4, mas tendo perdido 8. Naquele mesmo ano, pela primeira vez New York Yankees e Boston Red Sox se enfrentavam na final do Campeonato da Liga Americana. Os Yankees venceram por 4 jogos a 1.
Assim, os Red Sox, guerreiros incansáveis das décadas de 40, 60, 70 e 80 encerraram a década de 90 apenas com um título simples de Divisão, conquistado num jogo de contagem máxima.
2004: O ano do sangue nas meias
Os fãs do mais supersticioso dos esportes anunciavam. 1918, ano da última World Series conquistada + 86, anos de jejum = 2004.
Se isso passou pela cabeça de John Henry, Tom Werner e Larry Lucchino, donos do time, não se sabe. Mas com certeza a trindade estava com vontade de dar um basta na Maldição do Bambino de uma vez por todas.
Os Sox fizeram grandes contratações para a Temporada 2004. Trouxeram o Segunda Base Mark Bellhorn do Colorado Rockies; o Shortstop Orlando Cabrera, ex-Expos; Mike Myers, vindo do D-Backs; e ele, Curt Schilling, vindo do Arizona Diamondbacks, campeão da World Series em 2001. Reforçaram o time que já tinha Johnny Damon, David Ortiz, Manny Ramirez, Pedro Martinez, Derek Lowe e Bronson Arroyo. Todos de importância incontestável na final do Campeonato da Liga Americana e na World Series.
Anunciado como arremessador do Sox, em sua primeira entrevista Schilling sentenciou: "vim para derrotar o Yankees". Alguém duvida que, com essas palavras, Schilling conquistou a torcida Fiel de Fenway? Quando, ao invés de mencionar o título, disse aquilo que, para qualquer torcedor é mais importante que qualquer campeonato: vencer o arquirival. A partir dali, Schilling era um ídolo para o time. Era um Red Sox. E provaria isso mais pra frente.
Em sua temporada regular, os Sox somaram 98 vitórias contra 64 derrotas, com um aproveitamento percentual de .605 e um público médio de 2,837,304. Para a decisão do Campeonato de Divisão, eles enfrentariam os Anaheim Angels, campeões da WS em 2002. Somando 92 vitórias e 70 derrotas, os Angels, campeões do Oeste, parecem ter sentido o peso das seis vitórias de diferença que teve para a franquia de Boston. Perderam os três jogos sem oferecer muita resistência. Jogo 1 por 9 a 3, jogo 2 por 8 a 3 e jogo 3 por 8 a 6, no que parece o mais difícil da série.
Com a conquista, os Sox voltariam a encarar os rivais Yankees na final do Campeonato da Liga Americana. O mesmo aconteceu em 1999 e 2003, com os Yankees vencendo respectivamente por 4 jogos a 1 e 4 jogos a 3. Os Yankees de A-Rod vinham de uma campanha com 101 vitórias e 63 derrotas, e derrotaram o Minnesotta Twins por 3 a 1, após passaram por maus bocados em Nova York, quando perderam a primeira partida e stavam perdendo a segunda por 6 a 5 na 12º entrada, e conseguiram virar para 7-6.
E os Yankees começaram mostrando sua superioridade, vencendo a primeira partida da final por 10 a 7 e o segundo por 3 a 1, ambos em Nova York. Chegando a Boston, os Yankees fizeram uma partida espetacular, vencendo por 19 a 8. A essa altura, até o mais pessimista dos Yankees certamente gritava "RUMO AO CAMPEONATO 27". E todo mundo acreditava que os Yankees já estavam ganhos. Até a nona entrada o clube de Nova York ganhava o jogo por 4 a 3. Dave Roberts marcou a corrida de empate na partida. O jogou seguiu com entradas extras em branco, até que, na 12ª entrada, Ortiz marcou um home run em cima de Quantrill - situação muito parecida com o jogo 6 da WS de 1975. O Red Sox ganhou essa sobrevida. Na verdade, os Yankees começaram a perderam a séria naquele jogo.
No jogo 5, novamente os Yankees em vantagem. 4 a 2. Na oitava entrada, mais uma vez Ortiz marcou um HR e empatou a partida. E os Sox acabaram vencendo por 5 a 4 na 14ª entrada.
O jogo 6 voltou a Nova York. Certamente todos achavam que, após ganhar uma e perder duas em Boston, os Yankees iriam fechar a série em casa. E os Sox já estavam desafiando a história, pois nunca na Major League Baseball um time que começou perdendo final de campeonato por 3 a 0 conseguiu pelo menos levar ao sexto jogo. E lá estavam os Sox, quebrando um recorde. Schilling tinha se submetido a uma pequena cirurgia na segunda feira. Tinha costurado seu tornozelo. Durante o jogo, na terça, a ESPN mostrou seus pés. A costura estava se abrindo, e seu tornozelo, sangrando, manchou a meia de sangue - o que permitiu uma brincadeira de Miguel Porto e Marco Alfaro, narradores da ESPN Internacional para o Brasil: "Literalmente Red Sox". Pois Schilling, com suas meias sujas de sangue, foi o grande responsável pela vitória do Sox, por 4 a 2. E novamente Porto e Alfaro colocaram corretamente: "Essa imagem, do Schilling e suas meias manchadas de sangue, é a imagem do guerreiro incansável que foi o Sox nessa Série Final".
Schilling não entrou em campo no jogo 7. Precisou? Lowe, Martinez, Timlin e Embree deram conta do recado. Red Sox, de volta a World Series depois de 18 anos, 10; Yankees, humilhado em pleno Yankee Stadium, 3. E a imagem do George Steinbrenner define perfeitamente o sentimento Yankee para com aquele jogo.
Soltando o grito preso na garganta
Na World Series, os Sox tinham pela frente um Cardinals que veio de 105 vitórias e 57 derrotas, um aproveitamento de .648, uma média de público de 3,048,427. Parecia que seria uma série de tirar o fôlego, certo?
O primeiro jogo sim, teve suas doses de emoção. Quem foi ao Fenway Park pôde acompanhar os Sox vencerem por 11 a 9. Ortiz marcou um home run sobre Williams logo na primeira entrada, e Mark Bellhorn anotou o seu sobre Tavarez na oitava. Os Cardinals marcaram um HR também, com Walker sobre Wakefield. Keith Foulke terminou como arremessador vencedor do jogo.
A partir do jogo 2, as coisas começaram a se concretizar. Schilling e suas meias ensangüentadas terminou como o arremessador vencedor de uma partida que o Boston levou com 6 a 2. Era a última partida de Schilling na série, que à partir daí iria apenas descansar seu pé e assistir aos jogos do banco.
Os times foram para St. Louis para o jogo 3, e a torcida dos Cardinals, incansável, não parava de gritar "Let's Go Red Birds!" ("Vamos nessa, Pássaros Vermelhos!"). De nada adiantou. O Boston definiu seus quatro pontos até a quarta entrada, e só na última os Cardinals vieram marcar seu único ponto.
A festa merecida
O jogo 4 começou com um home run de Johnny Damon sobre Marquis. Os Sox mostraram que não queriam brincadeira, estavam ali para definir a partida. E era a vez dos torcedores dos Cardinals trazerem seus cartazes de "AINDA ACREDITAMOS". Mas parecia que apenas a torcida acreditava, porque o time esteve apático, assim como em todas as partidas da WS - com exceção do primeiro jogo. Do time de pássaros vermelhos que fez uma grande temporada regular e protagonizou uma batalha emocionante contra o Houston Astros, parece que só sobrou a torcida mesmo.
Na terceira entrada, os Sox fazem 3 a 0 e consolidam a partida. O Cardinals não tem time para empatar o jogo, e terminam a WS com uma partida em branco.
O jogo termina com a apreensão de Terry Francona e do agora torcedor Schilling, esperando o jogo encerrar. Derek Lowe entrega a bola nas mãos de Dave Ortiz para eliminar o último jogador do Cardinals, e finalmente todo o time do Sox pode entrar em campo para comemorar seu sexto título de World Series. E, na torcida, um torcedor do Cardinals que parecia mais feliz que triste exibia em seu cartaz: "Red Sox! Perdôo Vocês! Maldição do Bambino!"
Com essa vitória, o Boston bateu mais um recorde: primeiro time a conquistar 8 vitórias consecutivas em playoffs. As quatro finais sobre os Yankees mais essas quatro da série perfeita sobre os Cardinals.
Símbolos dessa conquista, Lowe, Ortiz, o MVP Martinez e Damon puderam saborear o champagne da vitória. E os Fiéis do Fenway finalmente puderam comemorar um título que, com certeza, a grande maioria nem viu o último que o time conquistou. A festa da Nova Inglaterra teve início, não só nas ruas de Boston, mas de toda região nordeste dos Estados Unidos.
E o velho Russ Houghton, o tal torcedor nascido em 1918, que ainda acreditava no título pôde, dessa vez, comemorar. Russ tinha apenas 2 meses da última vez que o Sox tinha sido campeão. Conservador, Russ respondeu quando lhe perguntaram qual seu jogador preferido: "É o Johnny Damon. Mas não gosto daquele cabelo de hippie dele". Tudo bem, Russ. Você sofreu por 86 anos... Agora tem todo direito de pedir que o Johnny corte sua cabeleira.
Certamente, ninguém mais que Russ e todos os Fiéis de Fenway mereciam esse título. Demorou, mas com certeza valeu à pena.

Hoje encerro o primeiro episódio de "Histórias do Esporte".

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